(por Arimatéia Moura Filho em 16/08/09)
“... é importante ter fé. É a fé!”
Dona Fransquinha, rezadeira
Residente na rua Nossa Senhora das
Graças, no Pirambu, a dona Francisca Moura de Melo (D. Fransquinha), de 56 anos, é rezadeira desde os 20. A entrevista foi muito agradável. Ela, que já foi visitada por outras equipes para falar sobre a ação histórica das parteiras no bairro, foi ouvida pela primeira vez como ‘curandeira’ por pesquisadores. A prática da ‘reza’ foi adjetivada por ela como ‘dom’, afirmando ainda que essa ‘mediunidade’ (palavra do seu vocabulário) foi algo com o qual já nasceu. Perguntada sobre sua iniciação na atividade, respondeu que aprendeu com a mãe, e que a fé tem muito poder ainda mais se tratando de coisas como ‘quebrante’, ‘cobreiro’, ‘mau-olhado’, coisas que tem um efeito real, segundo a entrevistada. Sobre a influência do rezador no processo de cura por meio da fé, D. Fransquinha disse que quem faz o ‘milagre’ é Deus, não ela, “...é importante ter fé. É a fé!”, disse. Ela também comentou que, dependendo do caso, faz jejuns: “eu tomo só o meu cafezinho de manhã...”, passando o dia nessa ‘consagração’ em favor do ‘paciente’. Perguntada sobre prescrição ou receita de alguma substância que influencie nesses rituais, ela falou sobre garrafadas, lambedores, chás, compressas geladas/quentes, e afirmou que não tinham nenhum significado espiritual, eram remédios do mato. “Antigamente a gente não tinha médico, não, era tudo remédio do mato mesmo.” Sobre o misticismo dos rituais, D. Fransquinha citou a utilização de ‘banhos de descarrego’ e dos ‘ramos’, que ela passa em caso inveja, o que, como ela disse, é algo terrível “... você sabe o que é inveja...?! Tranca tudo quanto é de caminho, meu filho...” Essa senhora de 56 anos diz que é variadíssimo o perfil dos seus atendidos, “homem, mulher, menino, gato, cachorro e até pé-de-planta”. No meio da conversa D. Fransquinha fez como se estivesse rezando pela minha saúde, e notei que ela rogou “pela força do sol, pelo poder dos astros, pelo mar sagrado” além “do Divino Espírito, da Virgem Maria, dos doze discípulos de Jesus...” e disse que depois de rezar passa o tratamento. Perguntada sobre a especificidade dos métodos, de onde vinha a certeza sobre o que receitar, ela disse: “não sei, vem aqui no meu ‘sentido’...”. Ela relatou inclusive que prescreve medicamentos da farmácia, eu perguntei de onde vinha aquele conhecimento e a resposta foi a mesma “... meu filho, vem no meu ‘sentido’...”, afirmou não saber mesmo ler nem escrever. Perguntada sobre a medicina tradicional, classificou-a como importante, por haverem casos onde só a reza não resolve. E Questionada sobre a sua visão quanto a si mesma, se ela se enxergava como uma agente cultural, religiosa, ou médica, disse que “o dom é da religião, mas é na saúde”. O interessante na conversa com a D. Fransquinha foi a citação inusitada dos nomes “Alan Kardete” (como ela chamou) e do “Dr. Bezerra de Menezes”. Perguntada sobre os dois personagens históricos relacionados ao espiritismo, falou que eram dois ‘espíritos bons’ que ajudavam no que fazer quanto às curas, mas certificou nunca ter entrado em um centro espírita. A mistura de elementos do espiritismo, com a crença na força da natureza e os equívocos em passagens bíblicas, junto à praticas próximas às da umbanda dão o aspecto sincrético à atividade das rezadeiras, como a Dona Frasquinha do Pirambu.
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