sexta-feira, 30 de julho de 2010
Adonai
Exerces sobre o Universo,
Obra de Tuas mãos
Grandiosos, os Teus feitos.
Perfeitos, os Teus estatutos.
És admirável.
Adorado, o Teu nome,
Desde antes do Princípio
Para todo o Sempre!
Marina
Feito vela,
Sobre as águas verdes
- Mornas águas -
Do mar aveludado
E espumejante
De Alencar,
É o céu, alaranjado
Pelo poente
Nas praias
Do Ceará
Grito Cantado
sexta-feira, 23 de abril de 2010
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Ao Léu
Ao Léu
Aqui, perto de mim, tem um pé-de-flôr.
Ali, distante daqui, tem um tubarão vivendo num balde [cheio.
De braços abertos, ao léu, tem um menino.
Voando feito avião, o menino.
Em mim, dentro de mim, tem um leãozinho.
Ali, perto daqui. Ao léu, em mim.
Alô?!
Quem fala?
Você quer falar com quem?
Quem quer saber com quem eu quero falar?
Com quem você fala é que quer saber com quem você quer [falar.
Alô? Alô...
Ali, alhures, além,
com os braços abertos, feito avião, voando.
Indo ao léu e, por incrível que pareça, chegando.
Foto e Fato: Arimatéia Moura Filho
Fortaleza, Abril de 2010.
sábado, 6 de março de 2010
Gauche
- Seja um peixe, meu filhinho,
eu serei um tubarão
E sua mãe, uma baleia.
- Eu vou ser artista, pai.
- Seja um médico, rapaz!
Eu sou um investidor,
Sua mãe, uma enfermeira.
- Pai, eu vou ser artista!
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Entrevista

Para ler mais sobre o trabalho do Lira: www.liraneto.com

1. Você biografou a vida de Maysa Matarazzo, José de Alencar, Castello Branco e, ano passado, lançou "Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão", considerado pelo Diário do Nordeste "um dos lançamentos mais importantes de 2009." Houve, certamente, mais de um motivo que o levou a optar pela vida de Cícero Romão Batista, como objeto pesquisa, entre tantos outros personagens também interessantes. Qual foi o mais forte?
R - Meu interesse na vida de Padre Cícero é antigo. O projeto de biografá-lo data de pelo menos uma década. Mas precisei me preparar para um trabalho de tamanha envergadura. Ao longo de todo esse tempo, fui juntando material e construindo fontes. Decidi biografá-lo pela radicalidade de sua trajetória e pelas muitas ambivalências que encarnou. Padre Cícero, para mim, é a síntese do Brasil profundo. Ao mesmo tempo, contar a história dele é também contar a história nordestina e brasileira de seu tempo. Interesso-me por personagens controversos que, como Cícero, deram margens para manifestações de amores e de ódios, de devoções e rejeições.
2. Ainda no contexto da pergunta anterior, a escolha por Maysa, Alencar, Castello e Cícero obviamente não foi aleatória. Esse processo de escolha de uma personalidade a ser biografada é bem pessoal, claro, mas ele tem algum critério básico? Qual seria, então, a exigência a que uma personagem histórica precisaria atender para ser biografadas por Lira Neto?
R - O critério básico é exatamente aquele: a radicalidade da vida e, por extensão, da alma do biografado. Fascinam-me as montanhas russas existenciais. Nunca biografaria personagens que levaram vidas em linha reta. Maysa, Alencar, Castello, Rodolfo e Cícero foram amados e odiados na mesma medida. Isso é o que os une e os identifica.
3. A história do Padre Cícero é registrada, segundo a memória de uma legião de devotos, indubitavelmente como a de um homem santo, milagreiro, o seu 'Padim'. Por outro lado, também há o registro feito pelos que o viam como charlatão, impostor, o 'coronel de batina'. Essa divergência de opiniões, que também são fonte histórica sobre a vida dele, permite que haja em vários pontos o conflito 'fato ou mito?'. Que pode, em alguns casos, ser solucionado com a utilização de documentos (Ou não. Afinal, há a possibilidade de uma documentação tão tendenciosa quanto os relatos de 'fieis'). A que tipo de registro documental você teve acesso durante a compilação da Biografia do Padre Cícero? Comente sobre um dos momentos em que tenha sido a Memória Popular a melhor fonte de pesquisa.
R - Meus livros, todos ele, são baseados em farta documentação. Sempre trabalho com fontes primárias. Mas o pesquisador tem que estar atento a uma questão básica: a de que todo documento embute uma intenção ou um interesse. As perguntas que se devem fazer diante de qualquer documentação - seja ela uma notícia de jornal, um depoimento oral, um papel passado em cartório, uma carta etc. - são as seguintes: "Quem produziu este documento?" "Com qual interesse?". No caso do livro sobre Cícero tive acesso a cerca de 900 cartas trocadas entre os protagonistas da história - cedidas pela Diocese do Crato -, além da documentação existente sobre o biografado nos arquivos secretos do Vaticano - conseguida por meio de fontes privilegiadas, cultivadas ao longo da pesquisa. Quanto à questão "fato x m
ito", é preciso um esclarecimento. Nem sempre esses dois conceitos são antônimos. Em primeiro lugar, os fatos não existem por si só, eles são mediados pela subjetividade de quem os presenciou e de quem os documentou. Por isso, há quem diga que não existem fatos, mas apenas as versões dos fatos. Em relação ao mito, ele não pode e não deve ser descartado pelo pesquisador. Não se pode, de modo algum, associar "mito" a "mentira" ou "inverdade histórica". É preciso compreender a razão do mito, o seu significado, sua gênese, sua importância para a compreensão e a construção histórica do que costumamos chamar de fato. No caso de Padre Cícero, as narrativas orais sobre o nascimento dele, a idéia de que seria a reencarnação do próprio Cristo, por exemplo, são preciosas para entender a devoção que o cerca.
4. Levando em consideração o gênero Biografia e baseando-se na "construção" da sua obra, como você vê a importância do seu trabalho biográfico para a comunidade acadêmica, em especial os historiadores, que pode utilizá-lo como fonte de pesquisa, por exemplo, no estudo da região ou da religião em Juazeiro do Norte, no caso do seu último lançamento?
R - Não escrevo para a comunidade acadêmica, muito embora meus livros sejam utilizados frequentemente por pesquisadores na área da história, da antropologia e das ciências sociais. Escrevo, na verdade, para um público não-iniciado, a quem o conhecimento produzido no interior dos muros da universidade não alcança e nem pretende alcançar. Recentemente, em um artigo publicado pelo caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, o historiador Bóris Fausto reconhecia a importância das biografias escritas pelos jornalistas e afirmava que elas são importantes por fazerem avançar o que ele chama de "conhecimento histórico". Talvez meus livros sejam uma modesta contribuição nesse processo.
5. O povo brasileiro gosta de 'biografia'. Reflexo disso é que já há um tempo que a Rede Globo tem investido ($$) fortemente na produção de minisséries e especiais periódicos baseados na vida de pessoas ilustres ('JK', 'Maysa', 'Dalva', 'Por Toda a Minha Vida'). Abusando, em vários momentos, da "licença poética" essas telebiografias chegam a distorcer, omitir, fantasiar alguns pontos da história que realmente aconteceu, você comentou isso em um artigo publicado pela FOLHA de São Paulo (14/01/09). Biografando, a que tipo de "licença poética" você se dá o luxo de lançar mão, se é que o faz?
R - Não me permito cometer nenhuma licença poética em meu trabalho de jornalista e biógrafo. Sou inimigo mortal disso, por esse motivo escrevi o tal artigo na Folha, a que você se refere. Minha imaginação é limitadíssima. Nunca seria um escritor de ficção. Minha filha de cinco anos até reclama porque não sei inventar histórias na hora de pô-la para dormir.
6. O que o motiva a escrever biografias, visto que "Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão" é a sua quarta obra no gênero?
R - Escrevo livros, especificamente biografias, porque a efemeridade do jornalismo diário não me basta, nunca me bastou. Por isso, escrevo reportagens de longo fôlego, de 500 páginas. Meus livros são só isso: reportagens investigativas. Só que a investigação não é sobre o que está ocorrendo hoje, não orbita em torno das "hard news", como se diz no jargão das redações. Escrevo também porque sou aficcionado pela narrativa. E pela imperfeição humana.
Palíndromo do Ari
Nada de muito especial, apenas um palíndromo. Meroma, um lugar para onde eu posso ir-me embora qualquer dia desses.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Cortejo Sutil
(www.cortejosutil.blogspot.com]
Um espaço tão agradável quanto este, interessante pelo surgimento de um heterônimo e pela reformulação de textos daqui, os mais 'ridículos'.
Calma, calma, não criemos pânico, continuarei a postar coisas novas nesse meu 'lugar à beira mar', podem esperar. Só resolvi socializar aquele, também meu, espaço de Cortejos Sutís. Bilhetes, cartas, pedaços de guardanapo... leiam, se quiserem comentem, se não quiserem não comentem, fiquem à vontade.
Um cheiro
Ari Areia
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Atelier
Se isso te faz mesmo bem.
Para não fantasiar,
Use apenas preto e branco.
Mas, querendo, fantasie!
Dê mais vida a esses traços,
Jogue tinta colorida:
Pinte... mãos entrelaçadas,
Deite o céu inteiro a baixo,
Deixe o chão todinho azul,
- Reinvente a paisagem -
Para lá pôr versos teus,
Os que ainda eu não te disse,
Risque retas entre as nuvens.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Fé e Cura 2
OPINIÃO MÉDICA
(por Arimatéia Moura Filho em 19/08/09)
“... você precisa ter fé em alguma coisa...”
Dr. Mairton de Lucena
sta. Ele é católico apostólico romano, foi seminarista antes de mudar para a área médica e surpreendeu bastante em suas respostas. A fé cura? Perguntei. “Não”, foi convicto, “a fé pode ajudar em outras coisas, mas curar não” disse que a fé é importante para dar rumo, esperança. O que seria fé, na sua concepção pessoal? A resposta foi uma citação de Richard Dawkins, autor de ‘Deus, um delírio’: “A fé é a convicção que se tem sobre coisas que não se vê”. Falei sobre a rezadeira que foi entrevistada pela equipe, sobre a sua prática clínica e perguntei a opinião dele quanto a isso; afirmou respeitar a ação dessas pessoas que agem da forma como culturalmente foram ensinadas, e lembrou o exemplo dos índios, que também não tinham faculdade de medicina, mas atuavam no trato das doenças. Falou ainda que essa suposta mediunidade pode estar alicerçada na própria experiência de vida dessas pessoas, quando ouvem falar que remédio ‘x’ ou planta ‘y’ dá certo pra amenizar dor ou mal-estar. E disse que não acreditava em cirurgias espirituais. Perguntei se na hora de um procedimento médico de risco entrava a fé, ou se apenas o conhecimento cientifico era válido, ele disse que a fé era algo válido sim “...você precisar ter fé em alguma coisa...” algo que não lhe faça perder as expectativas mesmo quando elas já são humanamente esvaídas. Enfim, foi rápido, mas foi interessante. Redigindo essa entrevista concluo que a relação da fé com a medicina pode ser mais intrínseca do que aparentemente se vê, já que os pacientes, por menos crentes que sejam, depositam alguma ‘quantidade’ de fé na ação humana dos médicos.quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Fé e Cura
(por Arimatéia Moura Filho em 16/08/09)
“... é importante ter fé. É a fé!”
Dona Fransquinha, rezadeira
Residente na rua Nossa Senhora das
Graças, no Pirambu, a dona Francisca Moura de Melo (D. Fransquinha), de 56 anos, é rezadeira desde os 20. A entrevista foi muito agradável. Ela, que já foi visitada por outras equipes para falar sobre a ação histórica das parteiras no bairro, foi ouvida pela primeira vez como ‘curandeira’ por pesquisadores. A prática da ‘reza’ foi adjetivada por ela como ‘dom’, afirmando ainda que essa ‘mediunidade’ (palavra do seu vocabulário) foi algo com o qual já nasceu. Perguntada sobre sua iniciação na atividade, respondeu que aprendeu com a mãe, e que a fé tem muito poder ainda mais se tratando de coisas como ‘quebrante’, ‘cobreiro’, ‘mau-olhado’, coisas que tem um efeito real, segundo a entrevistada. Sobre a influência do rezador no processo de cura por meio da fé, D. Fransquinha disse que quem faz o ‘milagre’ é Deus, não ela, “...é importante ter fé. É a fé!”, disse. Ela também comentou que, dependendo do caso, faz jejuns: “eu tomo só o meu cafezinho de manhã...”, passando o dia nessa ‘consagração’ em favor do ‘paciente’. Perguntada sobre prescrição ou receita de alguma substância que influencie nesses rituais, ela falou sobre garrafadas, lambedores, chás, compressas geladas/quentes, e afirmou que não tinham nenhum significado espiritual, eram remédios do mato. “Antigamente a gente não tinha médico, não, era tudo remédio do mato mesmo.” Sobre o misticismo dos rituais, D. Fransquinha citou a utilização de ‘banhos de descarrego’ e dos ‘ramos’, que ela passa em caso inveja, o que, como ela disse, é algo terrível “... você sabe o que é inveja...?! Tranca tudo quanto é de caminho, meu filho...” Essa senhora de 56 anos diz que é variadíssimo o perfil dos seus atendidos, “homem, mulher, menino, gato, cachorro e até pé-de-planta”. No meio da conversa D. Fransquinha fez como se estivesse rezando pela minha saúde, e notei que ela rogou “pela força do sol, pelo poder dos astros, pelo mar sagrado” além “do Divino Espírito, da Virgem Maria, dos doze discípulos de Jesus...” e disse que depois de rezar passa o tratamento. Perguntada sobre a especificidade dos métodos, de onde vinha a certeza sobre o que receitar, ela disse: “não sei, vem aqui no meu ‘sentido’...”. Ela relatou inclusive que prescreve medicamentos da farmácia, eu perguntei de onde vinha aquele conhecimento e a resposta foi a mesma “... meu filho, vem no meu ‘sentido’...”, afirmou não saber mesmo ler nem escrever. Perguntada sobre a medicina tradicional, classificou-a como importante, por haverem casos onde só a reza não resolve. E Questionada sobre a sua visão quanto a si mesma, se ela se enxergava como uma agente cultural, religiosa, ou médica, disse que “o dom é da religião, mas é na saúde”. O interessante na conversa com a D. Fransquinha foi a citação inusitada dos nomes “Alan Kardete” (como ela chamou) e do “Dr. Bezerra de Menezes”. Perguntada sobre os dois personagens históricos relacionados ao espiritismo, falou que eram dois ‘espíritos bons’ que ajudavam no que fazer quanto às curas, mas certificou nunca ter entrado em um centro espírita. A mistura de elementos do espiritismo, com a crença na força da natureza e os equívocos em passagens bíblicas, junto à praticas próximas às da umbanda dão o aspecto sincrético à atividade das rezadeiras, como a Dona Frasquinha do Pirambu.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Parafraseando: História
Tendo isso em vista, pensemos, pois: quem disse que o que foi, foi mesmo como dizem que foi?! "Quem disse?" Muito bom! Analisar 'quem disse' é um bom princípio. O próximo passo é pensar os interesses de 'quem disse' com aquilo que foi dito, e então chegar à conclusão de que talvez nada seja mesmo História - porque tudo tem história - ou, mesmo que seja história, pelo menos não é algo absoluto - afinal tem sempre outras histórias por trás que podem recontá-la, aprimorá-la, negá-la. Então, nada é História, porque tudo é história. E os homens... os homens, além de personagens, não passam de contadores de estórias, contadores da sua Estória. Que é real, claro, de acordo com a óptica usada para percebê-la, para quem usa essa óptica; mas que não deixa de ser questionável por quem usa outro ângulo de visão. Arte de contar o que foi vivido ou Ciência de tentar recompor o que foi vivido? História é isso, indefinível em sua própria essência, essencial em sua indefinição própria.
Arimatéia Moura Filho
Fortaleza, 24 de junho de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
QUERO
Chico Buarque - Cotidiano
TEXTO
Vou, pensei, vou querer todo o resto, tudo o que ainda não tenho, filhos, uma árvore, poderes mágicos, um cachorro, tudo mesmo! É isso... vou levar, por favor, embala pra viagem. Ah... viajar, quero mesmo sair por ai e quero que você venha comigo pra me ajudar, pode ser que eu precise de alguém pra carregar - pra eu carregar ou pra me carregar - e pode ser que eu nem precise, mas vou levar mesmo assim. Aliás, eu quero mais, além daquilo tudo que ainda não tenho, quero tudo aquilo que eu não posso ter porque não me deixam ter, mas - pssii... - vou querer segredo quanto a isso. Quero que o tempo volte, quero que o tempo pare. Quero tempo! E quero aprender a tocar piano, a pilotar avião, a fazer café. Quero casar e ver meus filhos, meus netos e bisnetos. Tudo o que eu puder, com os olhos fechados, ver, quero, e quero sonhar de olhos abertos também. Com os olhos abertos...
- Moço?! Moço...
- Hum... ah. Não, eu não vou querer mais nada, viu, obrigado.
- Ei, moço, o seu troco!
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
DOIS MIL E...
- Faltam oito dias para acabar o ano...
- Sério? Pensei que já tivesse acabado! É Por isso, então, que eu não conseguia lembrar das festas, dos presentes, dos fogos...
- Passou rápido esse ano.
- E o próximo vai passar mais ainda!
- Como você sabe?
(É dessa forma que acontece, o ano que chega sempre é mais rápido do que o que passou, e assim vai, até que não haja mais anos, só dias, horas, minutos, segundos e ai acaba. Fúnebre? Depende de quais sejam as suas expectativas para depois que acabar. Acaba mesmo? Acaba! Mãe, disseram na TV que o mundo ia acabar! Bobagem, meu filho. Mãe, como vai ser quando o mundo acabar? Não sei, meu filho, teria que ter acabado alguma vez para que eu soubesse e então lhe respondesse. Mãe...! Durma, meu filho. Era bom quando eu era criança, mas os anos foram passando cada vez mais rápido e eu logo me tornei adulto, daqui a alguns dias eu estarei velho, e de lá a alguns segundos pode ser que acabe, que eu acabe.]
- Responde, como é que você sabe... Está pensando em que?
- Esquece... Olha, o sol está se pondo! O pôr-do-sol é tão...
- Tão o que?
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Canta Passarinho
(Até O Fim - Chico Buarque)
TEXTOCANTA PASSARINHO!
Um Pássaro pousou na janela do meu quarto hoje, tranqüilo pousou ali, cantou, passou um tempo e depois voou. Qual seria a angústia de um Pássaro, desses que vivem soltos? Sim, pois a angústia não é - definitivamente não é - algo só dos homens. Da mesma janela, onde vi o Pássaro, vejo, por trás do Pé-de-Jambo que há no meu quintal, uma cadela que é angustiada - a Cadela da Vizinha de trás é angustiada - acho que é por conta da corrente que limita o seu espaço ou mesmo por conta da Criança da Casa, que cresceu e não lhe dá mais atenção.
Não vejo nada nesses pássaros silvestres livres que demonstre angústia, por isso concluo que eles não a sentem. Mas, pensando bem, é totalmente possível fingir que não se sente o que se está sentindo. Quer dizer que os pássaros mentem! Ou, talvez, só não consigam expressar o que sentem... Coitados dos pássaros! O seu coraçãozinho, que é tão tetracavitário quanto o nosso, tendo que suportar angústias que nós logo fazemos por onde externar para não sermos sufocados por elas!
Como diria o pensador - qual era mesmo o nome? Aristóteles, Aristarco, Arimatéia... é uma coisa assim - Para quem quer que seja, nada é mais angustiante que não poder externar sua angústia. Os pássaros cantam, mesmo quando queriam gritar, chorar, bater. Eles só cantam. E aquele Pássaro era angustiado acho que por isso. Quando ele pulou da minha janela, foi gastar o céu num vôo sedoso e solitário. O que levaria alguém a gastar o infinito, que o ilimita, assim sozinho?
Contando Machado de Assis
O Pojeto EnCENAção de dezembro inicia hoje, 5, e vai até o dia 7. Sempre às 20h, no Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, será apresentado o espetáculo CONTANDO MACHADO DE ASSIS que traz à cena os contos Missa do Galo e Mariana entrelaçados por partes de Dom Casmurro. O acesso é livre, mediante apresentação de senhas distribuídas 1 hora antes do espetáculo. A gente se vê por lá! Um cheiro.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Apartamento
Qui s'enfuit déjà"
(Jacques Brel)

TEXTO
APARTAMENTO
Gerard, diz que você não quis dizer o que disse, diz. Olha para mim, amor... Fala que ainda me ama, repete aquele galanteio que eu adoro 'Simone, mon amour...' Ei, olha para mim por favor, lembra daquele dia, o nosso dia? Ficamos aqui sozinhos a tarde toda enquanto lá fora chovia, eu adorei ficar assim com você. Gerard, olha para mim!!! O que foi que aconteceu? Ou quem foi que... Chega. Eu já entendi...
Como é que você faz uma coisa dessas comigo? Depois de tantos anos vivendo à sua disposição, em sua função. Depois de eu passar a depender organicamente de você, Gerard! Cafageste! Vai embora, vai. Era tudo mentira, não é? 'Simone mon amour...' tudo mentira. Pára! Não pedi que você enxugasse minhas lágrimas. Sai, não quero que me beije! Gerard, não me segura assim... Gerard... Gerar... Fica Gerard, fica...
- Não dá mais, Simone. Acabou...
[O pianista dedilha de forma espaçada, mas forte, enquanto a voz doce e chorosa de mulher balbucia:
"Ne me quitte pas... Ne me quitte pas... Ne me quitte pas..."
DICA
FÉRIAS!
Vai viajar no período das férias escolares? É mesmo?! E já pensou no destino? Vem pro Ceará!
Além de Fortaleza, que dispensa comentários; temos, na orla, Jeriquaquara (paradisíaco aquele lugar); O Iguape; O Cumbuco; e a Praia da Lagoinha (Paraipaba), se vier ao Ceará, visite esse lugar, é de mais! fora um monte praia, que aqui é o que não falta. Saindo do litoral e indo pra os locais mais frios, temos Guaramiranga, que é serra, é pertinho (e peeense num lugar fantástico); na Cuesta da Ibiapaba, temos um Bondinho que vai dar em Grutas e cavernas moldadas pela natureza; entre outros destinos turísticos legais. Ah, a nossa programação cultural é massa também. Vem pra cá, além da excepcional qualidade nos serviços de hotelaria, as tarifas relacionadas a esses serviços aqui na Capital do Sol são, no momento, as mais baratas em todo o País, aproveita!
Então, fica ai a dica!
Um Cheiro.
sábado, 22 de novembro de 2008
O que há de vir, virá e não tardará!
Ah, se eu fosse marinheiro era eu quem tinha partido!
(Marisa Monte)
texto
ENJÔO
- Senhor Comandante...
- Um minuto.
O que é que eu estou fazendo no camarote do Capitão-de-Fragata? É hora do almoço. O Capitão, comandante da embarcação, está fazendo sua refeição enquanto o navio divaga pelo Atlântico Sul; e eu aqui, prestes a cometer uma loucura, diante daquele homem que come silenciosamente.
- Diga, marinheiro.
- Senhor Comandante, vim pedir-lhe permissão para trocar o uniforme pela roupa de banho e atirar-me ao mar.
- Obviamente não!
A resposta foi curta, seca e sem vírgula mesmo - para dar mais agressividade à forma como foi dita. O homem sequer me olhou. Pediu que eu esperasse um minuto, enquanto ele cortava um pedaço de bife, e, só depois de mastigá-lo lentamente, disse: Diga, marinheiro. Ora, 'diga marinheiro'! Como é que se diz alguma coisa a um homem que mais parece uma parede de concreto? Eu queria, na verdade, era dizer que não aguento mais aquilo tudo, que para mim já deu o que tinha de dar, que agora vai ser como eu quero que seja e que não é nada pessoal, mas que essa farda branca e esse cap são ridículos!
Mas não adiantaria usar as palavras de um jeito mais claro e objetivo, era preciso fazer isso de forma mais 'linha doida', as paredes de concreto humanas não entendem as coisas quando ditas de forma clara e objetiva. A sensação de receber um "obviamente não" é uma das piores. Ele entendeu o que eu quis dizer, sei disso, por isso respondeu assim. Ele até se engasgou com o gole de suco que tomou logo que saí. Ele entendeu! E eu entendi também.
Entendi o não, que desmontaria qualquer marinheiro de primeira viagem. Mas eu não sou um! Por isso vou à cabina que divido com mais dois companheiros, livro-me daquele uniforme e do cap, ando até a popa e jogo-me nu mesmo ao mar. Vou rumo à costa que, vista assim de frente, é de uma fantasticidade ludibriante. É real! Há de ser uns seis meses até chegar lá, mas não é problema.
- Marinheiro! Marinheiro! Não lhe dei consentimento...
- Cale a boca, Senhor Comandante. Cale a boca!
dica
SIMPÓSIO 200 ANOS DE HISTÓRIA DA MÍDIA NO NORDESTE
Vai ser no Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura, muito bom mesmo! Eu só não vou participar pelo fato de ainda estar tendo aulas preparatórias para a segunda fase do vestibular da UECE durante os dias do Simpósio.
Dá uma conferida no site do evento e se inscreve: www.midianordeste.org.br
Fica ai a dica. Um cheiro!
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Quer ir mais eu?

Texto
GALOPE
Hoje acordei com vontade de cavalgar, de galopar à beira-mar, de correr a praia sentindo a água gelada respingar nos meus pés à pressão que as patas do meu Alazão fariam sobre a bruma que lambe aquela areia fina, pela manhã.
Acordei, hoje, com vontade de descrever, em estrofes de dez versos hendecassílabos, a paixão que sinto a tudo isso, à América do Sul, ao Brasil, ao Ceará, à fauna e à flora nativas da gleba onde habito, a qual também habitou Alencar - por sinal, meu vizinho -, autor de Iracema, a musa morena dos lábios de mel que vejo a banhar-se todos os dias nas águas da lagoa de messejana enquanto faço minha caminhada vespertina. Acordei com vontade de descrever o amor que sinto ao meu Amor!
Ah, quem me dera saber tocar viola! Mostrar-me-ia àquela moça bonita, a quem faço corte! Venceria os outros violeiros nos mais exaustivos duelos, cantando em sua homenagem, e vê-la-ia corar. Quem me dera ter uma roseira em casa para poder arrancar a mais bela das rosas e ofertar àquela moça bonita, da qual falei, quando terminasse minhas cantorias!
Hoje acordei com vontade de cavalgar, de galopar à beira-mar, de correr a praia sentindo a água, já não tão gelada, respingar nos meus pés à pressão que as patas do meu Alazão fariam sobre a bruma que lambe aquela areia fina, ao fim da tarde, ao vento, ao sol se pondo, ao cheiro da pele dela que aperta minha cintura enquanto galopamos juntos, à mesma sela.
opinião
AVENTURAS DA MESTIÇAGEM
Ontem, 18, de passagem rápida pela VIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, conversei um pouco com o Alan Damasceno (que vive o personagem Zé Cordel) depois da apresentação dele, enquanto assistíamos aos nossos fantásticos violeiros ( que inclusive fizeram uns versos citando-me durante a apresentação. Era um duelo, acho; ao menos era parecido). O Alan faz apresentações em eventos, recitando histórias de cordel, além de participar do Programa Nossa Arte [na BAND, aos domingos, às 6:30 da manhã. No orkut procure ZÉ CORDEL], ao qual assisto e indico a você que assista também; conversamos sobre Cordel, Repente, Viola... Como um fã assumido da cultura nacional, e da nordestina em especial, eu sou suspeito em comentar essas expressões artísticas, mas é preciso enaltecê-las, são algo maravilhoso! Toda a técnica que há em criar-se um Martelo Galopado ou um Galope à Beira-Mar me deixa mais fascinado ainda, por ver a facilidade com que nossos poetas natos o fazem. Meus aplausos a eles, que se garantem, e a todos que os admiram também. Admirar a arte é uma arte!
VIII Bienal Internacional do Livro do Ceará até o dia 21 no Centro de Convenções
A gente se vê por lá!


