domingo, 7 de fevereiro de 2010

Entrevista

Até algumas semanas atrás eu estava cursando História na Universidade Estadual do Ceará, mas passei no vestibular da Federal, para Jornalismo, e precisei abandonar a Uece por causa daquela lei que o Luís Inácio sancionou em novembro passado. Enfim. O último seminário que eu apresentei na 'História' foi sobre Biografias, Auto-biografias e Correspondências, cadeira de Introdução aos Estudos Históricos. Para esse seminário, a minha queridíssima Jéssica Cardoso conseguiu contato com o Lira Neto (autor de 'Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão', entre outras biografias). Eu e Jéssica elaboramos as perguntas e ficou tão legal, modéstia à parte, que eu resolvi postar aqui. Lira Neto, muito obrigado pela colaboração com a gente.









Para ler mais sobre o trabalho do Lira: www.liraneto.com

1. Você biografou a vida de Maysa Matarazzo, José de Alencar, Castello Branco e, ano passado, lançou "Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão", considerado pelo Diário do Nordeste "um dos lançamentos mais importantes de 2009." Houve, certamente, mais de um motivo que o levou a optar pela vida de Cícero Romão Batista, como objeto pesquisa, entre tantos outros personagens também interessantes. Qual foi o mais forte?

R - Meu interesse na vida de Padre Cícero é antigo. O projeto de biografá-lo data de pelo menos uma década. Mas precisei me preparar para um trabalho de tamanha envergadura. Ao longo de todo esse tempo, fui juntando material e construindo fontes. Decidi biografá-lo pela radicalidade de sua trajetória e pelas muitas ambivalências que encarnou. Padre Cícero, para mim, é a síntese do Brasil profu
ndo. Ao mesmo tempo, contar a história dele é também contar a história nordestina e brasileira de seu tempo. Interesso-me por personagens controversos que, como Cícero, deram margens para manifestações de amores e de ódios, de devoções e rejeições.

2. Ainda no contexto da pergunta anterior, a escolha por Maysa, Alencar, Castello e Cícero obviamente não foi aleatória. Esse processo de escolha de uma personalidade a ser biografada é bem pessoal, claro, mas ele tem algum critério básico? Qual seria, então, a exigência a que uma personagem histórica precisaria atender para ser biografadas por Lira Neto?

R - O critério básico é exatamente aquele: a radicalidade da vida e, por extensão, da alma do biografado. Fascinam-me as montanhas russas existenciais. Nunca biografaria personagens que levaram vidas em linha reta. Maysa, Alencar, Castello, Rodolfo e Cícero foram
amados e odiados na mesma medida. Isso é o que os une e os identifica.

3. A história do Padre Cícero é registrada, segundo a memória de uma legião de devotos, indubitavelmente como a de um homem santo, milagreiro, o seu 'Padim'. Por outro lado, também há o registro feito pelos que o viam como charlatão, impostor, o 'coronel de batina'. Essa divergência de opiniões, que também são fonte histórica sobre a vida dele, permite que haja em vários pontos o conflito 'fato ou mito?'. Que pode, em alguns casos, ser solucionado com a utilização de documentos (Ou não. Afinal, há a possibilidade de uma documentação tão tendenciosa quanto os relatos de 'fieis'). A que tipo de registro documental você teve acesso durante a compilação da Biografia do Padre Cícero? Comente sobre um dos momentos em que tenha sido a Memória Popular a melhor fonte de pesquisa.

R - Meus livros, todos ele, são baseados em farta documentação. Sempre trabalho com fontes primárias. Mas o pesquisador tem que estar atento a uma questão básica: a de que todo documento embute uma intenção ou um interesse. As perguntas que se deve
m fazer diante de qualquer documentação - seja ela uma notícia de jornal, um depoimento oral, um papel passado em cartório, uma carta etc. - são as seguintes: "Quem produziu este documento?" "Com qual interesse?". No caso do livro sobre Cícero tive acesso a cerca de 900 cartas trocadas entre os protagonistas da história - cedidas pela Diocese do Crato -, além da documentação existente sobre o biografado nos arquivos secretos do Vaticano - conseguida por meio de fontes privilegiadas, cultivadas ao longo da pesquisa. Quanto à questão "fato x mito", é preciso um esclarecimento. Nem sempre esses dois conceitos são antônimos. Em primeiro lugar, os fatos não existem por si só, eles são mediados pela subjetividade de quem os presenciou e de quem os documentou. Por isso, há quem diga que não existem fatos, mas apenas as versões dos fatos. Em relação ao mito, ele não pode e não deve ser descartado pelo pesquisador. Não se pode, de modo algum, associar "mito" a "mentira" ou "inverdade histórica". É preciso compreender a razão do mito, o seu significado, sua gênese, sua importância para a compreensão e a construção histórica do que costumamos chamar de fato. No caso de Padre Cícero, as narrativas orais sobre o nascimento dele, a idéia de que seria a reencarnação do próprio Cristo, por exemplo, são preciosas para entender a devoção que o cerca.

4. Levando em consideração o gênero Biografia e baseando-se na "construção" da sua obra, como você vê a importância do seu trabalho biográfico para a comunidade acadêmica, em especial os historiadores, que pode utilizá-lo como fonte de pesquisa, por exemplo, no estudo da região ou da religião em Juazeiro do Norte, no caso do seu último lançamento?

R - Não escrevo para a comunidade acadêmica, muito embora meus livros sejam utilizados frequentemente por pesquisadores na área da história, da antropologia e das ciências sociais. Escrevo, na verdade, para um público não-iniciado, a quem o conhecimento produzido no interior dos muros da universidade não alcança e nem pretende alcançar. Recentemente, em um artigo publicado pelo caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, o historiador Bóris Fausto reconhecia a importância das biografias escritas pelos jornalistas e afirmava que elas são importantes por fazerem avançar o que ele chama de "conhecimento histórico". Talvez meus livros sejam uma modesta contribuição nesse processo.

5. O povo brasileiro gosta de 'biografia'. Reflexo disso é que já há um tempo que a Rede Globo tem investido ($$) fortemente na produção de minisséries e especiais periódicos baseados na vida de pessoas ilustres ('JK', 'Maysa', 'Dalva', 'Por Toda a Minha Vida'). Abusando, em vários momentos, da "licença poética" essas telebiografias chegam a distorcer, omitir, fantasiar alguns pontos da história que realmente aconteceu, você comentou isso em um artigo publicado pela FOLHA de São Paulo (14/01/09). Biografando, a que tipo de "licença poética" você se dá o luxo de lançar mão, se é que o faz?

R - Não me permito cometer nenhuma licença poética em meu trabalho de jornalista e biógrafo. Sou inimigo mortal disso, por esse motivo escrevi o tal artigo na Folha, a que você se refere. Minha imaginação é limitadíssima. Nunca seria um escritor de ficção. Minha filha de cinco anos até reclama porque não sei inventar histórias na hora de pô-la para dormir.

6. O que o motiva a escrever biografias, visto que "Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão" é a sua quarta obra no gênero?

R - Escrevo livros, especificamente biografias, porque a efemeridade do jornalismo diário não me basta, nunca me bastou. Por isso, escrevo reportagens de longo fôlego, de 500 páginas. Meus livros são só isso: reportagens investigativas. Só que a investigação não é sobre o que está ocorrendo hoje, não orbita em torno das "hard news", como se diz no jargão das redações. Escrevo também porque sou aficcionado pela narrativa. E pela imperfeição humana.



Palíndromo do Ari

'Amar-te, amor, em Meroma é trama.'

Nada de muito especial, apenas um palíndromo. Meroma, um lugar para onde eu posso ir-me embora qualquer dia desses.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Cortejo Sutil

'... Sou, como todo romântico, ridículo. Mas sou, como poucos ridículos, intensamente sensível.'
(www.cortejosutil.blogspot.com]

Um espaço tão agradável quanto este, interessante pelo surgimento de um heterônimo e pela reformulação de textos daqui, os mais 'ridículos'.
Calma, calma, não criemos pânico, continuarei a postar coisas novas nesse meu 'lugar à beira mar', podem esperar. Só resolvi socializar aquele, também meu, espaço de Cortejos Sutís. Bilhetes, cartas, pedaços de guardanapo... leiam, se quiserem comentem, se não quiserem não comentem, fiquem à vontade.

Um cheiro

Ari Areia

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Atelier

Faça planos para mim
Se isso te faz mesmo bem.
Para não fantasiar,
Use apenas preto e branco.

Mas, querendo, fantasie!
Dê mais vida a esses traços,
Jogue tinta colorida:
Pinte... mãos entrelaçadas,

Deite o céu inteiro a baixo,
Deixe o chão todinho azul,
- Reinvente a paisagem -

Para lá pôr versos teus,
Os que ainda eu não te disse,
Risque retas entre as nuvens.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Fé e Cura 2

Mais uma parte do nosso projeto "FÉ E CURA NAS RELIGIÕES", para a cadeira de Introdução à Antropologia. Primeiro Semestre do Curso de História na UECE.

OPINIÃO MÉDICA
(por Arimatéia Moura Filho em 19/08/09)

“... você precisa ter fé em alguma coisa...”
Dr. Mairton de Lucena

O Dr. Mairton de Lucena, neurocirurgião, foi convidado pelo centro de Biomedicina da UECE, no dia 19/08, para ministrar uma aula, e nos cedeu alguns minutos para esta entrevista. Ele é católico apostólico romano, foi seminarista antes de mudar para a área médica e surpreendeu bastante em suas respostas. A fé cura? Perguntei. “Não”, foi convicto, “a fé pode ajudar em outras coisas, mas curar não” disse que a fé é importante para dar rumo, esperança. O que seria fé, na sua concepção pessoal? A resposta foi uma citação de Richard Dawkins, autor de ‘Deus, um delírio’: “A fé é a convicção que se tem sobre coisas que não se vê”. Falei sobre a rezadeira que foi entrevistada pela equipe, sobre a sua prática clínica e perguntei a opinião dele quanto a isso; afirmou respeitar a ação dessas pessoas que agem da forma como culturalmente foram ensinadas, e lembrou o exemplo dos índios, que também não tinham faculdade de medicina, mas atuavam no trato das doenças. Falou ainda que essa suposta mediunidade pode estar alicerçada na própria experiência de vida dessas pessoas, quando ouvem falar que remédio ‘x’ ou planta ‘y’ dá certo pra amenizar dor ou mal-estar. E disse que não acreditava em cirurgias espirituais. Perguntei se na hora de um procedimento médico de risco entrava a fé, ou se apenas o conhecimento cientifico era válido, ele disse que a fé era algo válido sim “...você precisar ter fé em alguma coisa...” algo que não lhe faça perder as expectativas mesmo quando elas já são humanamente esvaídas. Enfim, foi rápido, mas foi interessante. Redigindo essa entrevista concluo que a relação da fé com a medicina pode ser mais intrínseca do que aparentemente se vê, já que os pacientes, por menos crentes que sejam, depositam alguma ‘quantidade’ de fé na ação humana dos médicos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Fé e Cura

Isto é parte do Projeto desenvolvido pela minha equipe na cadeira de INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA, primeiro semestre de História na UECE. O tema Fé e Cura Nas Religiões: Um Estudo sobre Católicos, Protestantes e Espíritas.


A REZADEIRA
(por Arimatéia Moura Filho em 16/08/09)

“... é importante ter fé. É a fé!”

Dona Fransquinha, rezadeira


Residente na rua Nossa Senhora das Graças, no Pirambu, a dona Francisca Moura de Melo (D. Fransquinha), de 56 anos, é rezadeira desde os 20. A entrevista foi muito agradável. Ela, que já foi visitada por outras equipes para falar sobre a ação histórica das parteiras no bairro, foi ouvida pela primeira vez como ‘curandeira’ por pesquisadores. A prática da ‘reza’ foi adjetivada por ela como ‘dom’, afirmando ainda que essa ‘mediunidade’ (palavra do seu vocabulário) foi algo com o qual já nasceu. Perguntada sobre sua iniciação na atividade, respondeu que aprendeu com a mãe, e que a fé tem muito poder ainda mais se tratando de coisas como ‘quebrante’, ‘cobreiro’, ‘mau-olhado’, coisas que tem um efeito real, segundo a entrevistada. Sobre a influência do rezador no processo de cura por meio da fé, D. Fransquinha disse que quem faz o ‘milagre’ é Deus, não ela, “...é importante ter fé. É a fé!”, disse. Ela também comentou que, dependendo do caso, faz jejuns: “eu tomo só o meu cafezinho de manhã...”, passando o dia nessa ‘consagração’ em favor do ‘paciente’. Perguntada sobre prescrição ou receita de alguma substância que influencie nesses rituais, ela falou sobre garrafadas, lambedores, chás, compressas geladas/quentes, e afirmou que não tinham nenhum significado espiritual, eram remédios do mato. “Antigamente a gente não tinha médico, não, era tudo remédio do mato mesmo.” Sobre o misticismo dos rituais, D. Fransquinha citou a utilização de ‘banhos de descarrego’ e dos ‘ramos’, que ela passa em caso inveja, o que, como ela disse, é algo terrível “... você sabe o que é inveja...?! Tranca tudo quanto é de caminho, meu filho...” Essa senhora de 56 anos diz que é variadíssimo o perfil dos seus atendidos, “homem, mulher, menino, gato, cachorro e até pé-de-planta”. No meio da conversa D. Fransquinha fez como se estivesse rezando pela minha saúde, e notei que ela rogou “pela força do sol, pelo poder dos astros, pelo mar sagrado” além “do Divino Espírito, da Virgem Maria, dos doze discípulos de Jesus...” e disse que depois de rezar passa o tratamento. Perguntada sobre a especificidade dos métodos, de onde vinha a certeza sobre o que receitar, ela disse: “não sei, vem aqui no meu ‘sentido’...”. Ela relatou inclusive que prescreve medicamentos da farmácia, eu perguntei de onde vinha aquele conhecimento e a resposta foi a mesma “... meu filho, vem no meu ‘sentido’...”, afirmou não saber mesmo ler nem escrever. Perguntada sobre a medicina tradicional, classificou-a como importante, por haverem casos onde só a reza não resolve. E Questionada sobre a sua visão quanto a si mesma, se ela se enxergava como uma agente cultural, religiosa, ou médica, disse que “o dom é da religião, mas é na saúde”. O interessante na conversa com a D. Fransquinha foi a citação inusitada dos nomes “Alan Kardete” (como ela chamou) e do “Dr. Bezerra de Menezes”. Perguntada sobre os dois personagens históricos relacionados ao espiritismo, falou que eram dois ‘espíritos bons’ que ajudavam no que fazer quanto às curas, mas certificou nunca ter entrado em um centro espírita. A mistura de elementos do espiritismo, com a crença na força da natureza e os equívocos em passagens bíblicas, junto à praticas próximas às da umbanda dão o aspecto sincrético à atividade das rezadeiras, como a Dona Frasquinha do Pirambu.


quarta-feira, 24 de junho de 2009

Parafraseando: História

Tudo é História porque tudo tem história - ou mesmo que não tenha uma História, tem historicidade. Todo passado tem presente - isto que foi construído, aparentemente, em cima daquilo - e todo presente tem passado - aquilo que vai servir de base pra outro aquilo -, "o Presente é formado por vários Agoras". E há também os Aquis, que formam os Agoras, os quais, juntos a outros Agoras, formam o Presente. Esses, os Agoras, são penosamente selecionados de acordo com quem historia afim de passar para o futuro apenas a imagem do Aqui desejado.
Tendo isso em vista, pensemos, pois: quem disse que o que foi, foi mesmo como dizem que foi?! "Quem disse?" Muito bom! Analisar 'quem disse' é um bom princípio. O próximo passo é pensar os interesses de 'quem disse' com aquilo que foi dito, e então chegar à conclusão de que talvez nada seja mesmo História - porque tudo tem história - ou, mesmo que seja história, pelo menos não é algo absoluto - afinal tem sempre outras histórias por trás que podem recontá-la, aprimorá-la, negá-la. Então, nada é História, porque tudo é história. E os homens... os homens, além de personagens, não passam de contadores de estórias, contadores da sua Estória. Que é real, claro, de acordo com a óptica usada para percebê-la, para quem usa essa óptica; mas que não deixa de ser questionável por quem usa outro ângulo de visão. Arte de contar o que foi vivido ou Ciência de tentar recompor o que foi vivido? História é isso, indefinível em sua própria essência, essencial em sua indefinição própria.

Arimatéia Moura Filho
Fortaleza, 24 de junho de 2009