
Para ler mais sobre o trabalho do Lira: www.liraneto.com

1. Você biografou a vida de Maysa Matarazzo, José de Alencar, Castello Branco e, ano passado, lançou "Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão", considerado pelo Diário do Nordeste "um dos lançamentos mais importantes de 2009." Houve, certamente, mais de um motivo que o levou a optar pela vida de Cícero Romão Batista, como objeto pesquisa, entre tantos outros personagens também interessantes. Qual foi o mais forte?
R - Meu interesse na vida de Padre Cícero é antigo. O projeto de biografá-lo data de pelo menos uma década. Mas precisei me preparar para um trabalho de tamanha envergadura. Ao longo de todo esse tempo, fui juntando material e construindo fontes. Decidi biografá-lo pela radicalidade de sua trajetória e pelas muitas ambivalências que encarnou. Padre Cícero, para mim, é a síntese do Brasil profundo. Ao mesmo tempo, contar a história dele é também contar a história nordestina e brasileira de seu tempo. Interesso-me por personagens controversos que, como Cícero, deram margens para manifestações de amores e de ódios, de devoções e rejeições.
2. Ainda no contexto da pergunta anterior, a escolha por Maysa, Alencar, Castello e Cícero obviamente não foi aleatória. Esse processo de escolha de uma personalidade a ser biografada é bem pessoal, claro, mas ele tem algum critério básico? Qual seria, então, a exigência a que uma personagem histórica precisaria atender para ser biografadas por Lira Neto?
R - O critério básico é exatamente aquele: a radicalidade da vida e, por extensão, da alma do biografado. Fascinam-me as montanhas russas existenciais. Nunca biografaria personagens que levaram vidas em linha reta. Maysa, Alencar, Castello, Rodolfo e Cícero foram amados e odiados na mesma medida. Isso é o que os une e os identifica.
3. A história do Padre Cícero é registrada, segundo a memória de uma legião de devotos, indubitavelmente como a de um homem santo, milagreiro, o seu 'Padim'. Por outro lado, também há o registro feito pelos que o viam como charlatão, impostor, o 'coronel de batina'. Essa divergência de opiniões, que também são fonte histórica sobre a vida dele, permite que haja em vários pontos o conflito 'fato ou mito?'. Que pode, em alguns casos, ser solucionado com a utilização de documentos (Ou não. Afinal, há a possibilidade de uma documentação tão tendenciosa quanto os relatos de 'fieis'). A que tipo de registro documental você teve acesso durante a compilação da Biografia do Padre Cícero? Comente sobre um dos momentos em que tenha sido a Memória Popular a melhor fonte de pesquisa.
R - Meus livros, todos ele, são baseados em farta documentação. Sempre trabalho com fontes primárias. Mas o pesquisador tem que estar atento a uma questão básica: a de que todo documento embute uma intenção ou um interesse. As perguntas que se devem fazer diante de qualquer documentação - seja ela uma notícia de jornal, um depoimento oral, um papel passado em cartório, uma carta etc. - são as seguintes: "Quem produziu este documento?" "Com qual interesse?". No caso do livro sobre Cícero tive acesso a cerca de 900 cartas trocadas entre os protagonistas da história - cedidas pela Diocese do Crato -, além da documentação existente sobre o biografado nos arquivos secretos do Vaticano - conseguida por meio de fontes privilegiadas, cultivadas ao longo da pesquisa. Quanto à questão "fato x m
ito", é preciso um esclarecimento. Nem sempre esses dois conceitos são antônimos. Em primeiro lugar, os fatos não existem por si só, eles são mediados pela subjetividade de quem os presenciou e de quem os documentou. Por isso, há quem diga que não existem fatos, mas apenas as versões dos fatos. Em relação ao mito, ele não pode e não deve ser descartado pelo pesquisador. Não se pode, de modo algum, associar "mito" a "mentira" ou "inverdade histórica". É preciso compreender a razão do mito, o seu significado, sua gênese, sua importância para a compreensão e a construção histórica do que costumamos chamar de fato. No caso de Padre Cícero, as narrativas orais sobre o nascimento dele, a idéia de que seria a reencarnação do próprio Cristo, por exemplo, são preciosas para entender a devoção que o cerca.
4. Levando em consideração o gênero Biografia e baseando-se na "construção" da sua obra, como você vê a importância do seu trabalho biográfico para a comunidade acadêmica, em especial os historiadores, que pode utilizá-lo como fonte de pesquisa, por exemplo, no estudo da região ou da religião em Juazeiro do Norte, no caso do seu último lançamento?
R - Não escrevo para a comunidade acadêmica, muito embora meus livros sejam utilizados frequentemente por pesquisadores na área da história, da antropologia e das ciências sociais. Escrevo, na verdade, para um público não-iniciado, a quem o conhecimento produzido no interior dos muros da universidade não alcança e nem pretende alcançar. Recentemente, em um artigo publicado pelo caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, o historiador Bóris Fausto reconhecia a importância das biografias escritas pelos jornalistas e afirmava que elas são importantes por fazerem avançar o que ele chama de "conhecimento histórico". Talvez meus livros sejam uma modesta contribuição nesse processo.
5. O povo brasileiro gosta de 'biografia'. Reflexo disso é que já há um tempo que a Rede Globo tem investido ($$) fortemente na produção de minisséries e especiais periódicos baseados na vida de pessoas ilustres ('JK', 'Maysa', 'Dalva', 'Por Toda a Minha Vida'). Abusando, em vários momentos, da "licença poética" essas telebiografias chegam a distorcer, omitir, fantasiar alguns pontos da história que realmente aconteceu, você comentou isso em um artigo publicado pela FOLHA de São Paulo (14/01/09). Biografando, a que tipo de "licença poética" você se dá o luxo de lançar mão, se é que o faz?
R - Não me permito cometer nenhuma licença poética em meu trabalho de jornalista e biógrafo. Sou inimigo mortal disso, por esse motivo escrevi o tal artigo na Folha, a que você se refere. Minha imaginação é limitadíssima. Nunca seria um escritor de ficção. Minha filha de cinco anos até reclama porque não sei inventar histórias na hora de pô-la para dormir.
6. O que o motiva a escrever biografias, visto que "Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão" é a sua quarta obra no gênero?
R - Escrevo livros, especificamente biografias, porque a efemeridade do jornalismo diário não me basta, nunca me bastou. Por isso, escrevo reportagens de longo fôlego, de 500 páginas. Meus livros são só isso: reportagens investigativas. Só que a investigação não é sobre o que está ocorrendo hoje, não orbita em torno das "hard news", como se diz no jargão das redações. Escrevo também porque sou aficcionado pela narrativa. E pela imperfeição humana.

